sexta-feira, julho 21, 2017

DE CANÇÃO EM CANÇÃO (Song to Song)

Talvez o problema de Terrence Malick foi ter acertado a mão em A ÁRVORE DA VIDA (2011), em que ele usou talvez pela primeira vez o uso da câmera-chicote, que trabalha a aproximação e a rejeição ao mesmo tempo. É um tipo de efeito muito interessante, mas imagina só ver uma obra inteira feita dessa maneira, e com cortes rápidos, que impedem que quase nunca possamos ver imagens estáticas, a não ser quando a câmera está dentro de um barco, por exemplo, como na cena com Cate Blanchett.

O que a gente pode perceber também em DE CANÇÃO EM CANÇÃO (2017) é o quanto Malick passou de cineasta existencialista e religioso para um homem interessado nas coisas, digamos, mais mundanas. Ele aborda o amor, algo transcendental em qualquer forma que ele seja apresentado, mas o diretor está muito interessado em filmar rostos bonitos. Se em A ÁRVORE DA VIDA e também em AMOR PLENO (2012) Jessica Chastain e Olga Kurylenko parecem figuras angelicais, esse sentimento é deixado de lado no novo filme.

Ou ao menos, é diminuído consideravelmente, já que a personagem de Rooney Mara parece estar vivendo uma crise de consciência tremenda, ao estar com dois homens ao mesmo tempo, traindo o namorado vivido por Ryan Gosling pela personificação do cafajeste conquistador vivido por Michael Fassbender. Os dois atores, é bom dizer, funcionam muito bem dentro desses papéis. Não é uma má escolha no casting. Mas o excesso de voice over e de tentativa de dar profundidade às suas angústias acaba por tirar-lhes a voz.

Por causa disso é que uma cena que deveria ser impactante, envolvendo Natalie Portman, acaba não tendo força. Seria por culpa da edição, que tirou muito de sua personagem no enredo? Quem sabe. Mas o fato é que assistir a DE CANÇÃO EM CANÇÃO é até um desafio. Não é todo mundo que entra na sala e fica até o final. Muitos espectadores vão embora, coisa que aconteceu com A ÁRVORE DA VIDA também. Assim, é preciso entrar na sala esperando ver um filme de Terrence Malick. O Malick dos anos 2010, mais disposto a contar uma história de maneira fragmentada e com esse estilo que ficou mais parecendo um cacoete.

Há também frustração na questão da música, que é anunciada no título. Algumas das canções são muito boas, mas quando elas começam a tocar e o filme fica parecendo um belo trailer (como são belos os trailers dos filmes do Malick, hein?), essas mesmas canções são interrompidas, causando mais irritação. Tudo em prol de manter o mesmo flutuar em vai-vens da câmera do mexicano Emmanuel Lubeski. Aliás, uma das melhores coisas do filme e o que mais segura o espectador é a beleza das imagens que Lubeski capta. Mais do que o interesse pelos músicos (Patti Smith, Iggy Pop, Red Hot Chilli Peppers).

E aí temos a beleza do elenco. Cate Blanchett aparece pouco, mas poucas vezes ela apareceu de maneira tão deslumbrante como em DE CANÇÃO EM CANÇÃO. É até perdoável que Malick tenha se deixado inebriar pela beleza de seu elenco. Fazer cinema é muitas vezes registrar a beleza dos corpos jovens da melhor maneira possível, a fim de eternizá-los. Em alguns momentos, Malick quase se deixa levar pelo lado mais sensual, com personagens, principalmente as femininas, tocando ou tendo tocado o seu sexo com volúpia. E, nisso, vale destacar também uma cena de amor entre duas mulheres, o que só aumenta o sentimento de fascínio do diretor pela beleza sensual, ainda que seja uma beleza sempre branca, emoldura por filtros e por uma arquitetura sempre de riqueza material e envolta pelas coisas que o dinheiro pode comprar.

quarta-feira, julho 19, 2017

MEMÓRIAS SECRETAS (Remember)

Outra perda noticiada e lamentada nesse último domingo (a morte foi no sábado) foi a do prolífico ator Martin Landau, que teve como um de seus últimos papéis marcantes o de MEMÓRIAS SECRETAS (2015), de Atom Egoyan. Vi-o em maio do ano passado e é curioso eu justamente estar falando dele com a memória fraca, dada a distância de tempo, e sendo um filme sobre um personagem com Alzheimer.

Com 177 títulos no currículo como ator, Martin Landau começou sua carreira na televisão na década de 1950 e já na mesma década teve a honra de estar em um filme de Alfred Hitchcock, INTRIGA INTERNACIONAL. Mas ele acabou se notabilizando pelos trabalhos na televisão e brilhou na série MISSÃO: IMPOSSÍVEL nos anos 1960. No cinema dos anos 1970-80 se dedicou a alguns filmes B de terror e ficção científica.

As coisas melhoraram para Landau quando surgiram papéis importantes, como os de TUCKER - UM HOMEM E SEU SONHO, de Francis Ford Coppola, e seu desempenho excepcional em CRIMES E PECADOS, de Woody Allen. Mas sua coroação veio com ED WOOD, de Tim Burton, que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante, interpretando de maneira comovente e engraçada um Bela Lugosi decadente.

Em MEMÓRIAS SECRETAS, Landau é um nonagenário sobrevivente de Auschwitz que prepara uma vingança contra o nazista responsável por matar sua família nos campos de concentração. O problema é que ele não tem como fazer isso estando em uma cadeira de rodas. A não ser que ele peça ajuda a seu melhor amigo, vivido por Christopher Plummer, vítima dos mesmos carrascos.

Acontece que o personagem de Plummer, de nome Zed, tem um outro problema sério: o mal de Alzheimer. Assim, sua tarefa para fugir da casa de repouso e procurar a casa do tal nazista para, enfim, executá-lo, não é nada fácil. E isso acaba se tornando algo divertido e ao mesmo tempo angustiante para o espectador. O veterano Plummer, quase um nonagenário também, está ótimo em seu personagem desmemoriado, mas com disposição para executar o ato.

Talvez o filme fosse mais memorável se estivesse nas mãos de outro cineasta, já que Atom Egoyan anda fazendo uns filmes bem mais ou menos já faz algum tempo. Se bem que o último trabalho dele que vi foi O PREÇO DA TRAIÇÃO (2009), mas a maior parte dos críticos não tem gostado muitos de seus filmes, não. Principalmente levando em consideração que ele começou muito bem nos anos 1990, com EXÓTICA (1994) e depois ganhando a Palma de Ouro em Cannes com O DOCE AMANHÃ (1997). Seria o caso de diretor que perdeu a mão ou de um picareta que enganou a todos? De todo modo, MEMÓRIAS SECRETAS não é um filme que se deve deixar de lado.

segunda-feira, julho 17, 2017

A NOITE DOS MORTOS-VIVOS (Night of the Living Dead)

E foi aqui que tudo começou. Toda essa explosão de zumbis em filmes, livros, séries, quadrinhos, games, peças e até em passeatas. Tudo começou com este filme dirigido por um jovem de 28 anos chamado George A. Romero. Diferente de seus zumbis, ele preferiu não seguir vivo após a luta contra o câncer de pulmão. Mas o impacto de A NOITE DOS MORTOS-VIVOS (1968) na história do cinema (não apenas de horror) vai ficar pra sempre. Ou pelo menos até o dia em que aparecer uma epidemia de zumbis e todos esses filmes forem, de alguma maneira, perdidos.

Romero não foi apenas o criador dos zumbis modernos que continuam sendo copiados e explorados até a exaustão. Alguns outros filmes de impacto também tiveram seu nome à frente, como foi o caso de suas parcerias com Stephen King, CREEPSHOW - SHOW DE HORRORES (1982) e A METADE NEGRA (1993), e com Dario Argento, para adaptar Edgar Allan Poe em DOIS OLHOS SATÂNICOS (1990). Ou de suas originais histórias de vampiro (MARTIN, 1978) e de animal assassino (INSTINTO FATAL, 1988). Sem falar nos outros cinco filmes de zumbis que também foram um reflexo no contexto social e político em que foram realizados.

A NOITE DOS MORTOS-VIVOS talvez não tenha sido o primeiro filme de horror a usar sua história como alegoria para fazer uma crítica social, mas certamente é o mais lembrado. Em 1968, os negros lutavam pela igualdade social em uma América cheia de preconceitos. Muitos morreram lutando, inclusive alguns líderes como Martin Luther King e Malcolm X, covardemente assassinados. E Romero ainda teve a coragem de colocar um protagonista negro, Ben (Duane Jones), como o homem mais sensato e centrado entre os sobreviventes da casa, enquanto os brancos ou pareciam catatônicos, caso de Barbra (Judith O'Dea), ou totalmente egoístas, caso do senhor careca que quer medir forças com Ben, vivido por Karl Hardman, também um dos produtores do filme.

Umas das coisas que mais impressiona em A NOITE DOS MORTOS-VIVOS é seu ritmo ágil que até hoje nos deixa com a adrenalina lá em cima. E isso começa já nos primeiros 10 minutos de duração, quando surge o primeiro zumbi no cemitério e ataca Barbra e seu irmão. A partir daí a brincadeira de pega-pega só para quando o filme termina, e tudo passa com uma rapidez e fluidez narrativa impressionante e em um registro cru da luta pela sobrevivência daquelas pessoas dentro daquela casa.

E tudo o que se aprendeu sobre os zumbis está aí, nesta espécie de manual. Até então os zumbis que eram vistos nos filmes tinham raízes no Haiti ou imediações, a partir de feitiços. Zumbis que comem carne humana e só morrem com um tiro ou pancada forte na cabeça nasceram aqui. Curiosamente, Romero vai tornando seus zumbis mais inteligentes ao longo de seus demais filmes. Já neste primeiro filme vemos alguns deles pegando pedaços de pau para quebrar a casa, coisa que não se vê em THE WALKING DEAD, por exemplo.

E assim Romero fez história matando três coelhos com uma só cajadada. Ao mesmo tempo em que criou os zumbis modernos (mesmo sem utilizar o nome zumbis em momento nenhum do filme), ele também popularizou o cinema de horror como crítica social. Mas tudo seria apenas uma nota nos livros se A NOITE DOS MORTOS-VIVOS não fosse também um baita filme cheio de suspense e horror que nem o tempo nem o baixo orçamento tratou de diminuir. Ao contrário: o primeiro longa de Romero só cresceu ao longo dos anos. Este gigante (até na estatura) vai fazer uma falta imensa, mas seu legado está aí, crescendo-se e multiplicando-se.

domingo, julho 16, 2017

O FUTURO PERFEITO (El Futuro Perfecto)

É muito bom poder se deparar com um filme tão estranho quanto atraente quanto O FUTURO PERFEITO (2016), da diretora alemã radicada na Argentina Nele Wohlatz. Isso porque o tom às vezes bressoniano de interpretação dos intérpretes (e um elenco formado por não-atores) acaba se tornando familiar até para um público menos familiarizado com um tipo de cinema mais hermético. Isso porque tanto pode lembrar os role-playing games das aulas de línguas, quanto a vida de uma pessoa inocente em uma terra distante, o que até lembra, em alguns momentos, a Macabeia, de A HORA DA ESTRELA.

Mas o caso de Xiaobin, que adota na Argentina o nome Beatriz, é ainda mais complicado, já que ela chega àquela terra estranha sem saber nenhuma palavra do espanhol. Seus pais não se interessam em se integrar àquela sociedade, pois planejam ganhar dinheiro e voltar para a China e por isso só falam em mandarim, na empresa de lavanderia que cuidam. Mas a menina de 17 anos não: ela quer se adaptar àquele mundo novo. E para isso ela procura empregos simples e também cursos para aprender o espanhol. Até porque no primeiro trabalho ela não entendia nada o que os clientes estavam falando e isso lhe custou um emprego.

É possível também se identificar com a personagem se em algum momento da sua vida você já se sentiu excluído ou um peixe fora d´água. Daí é possível entender um pouco a atração que Beatriz sente pelo rapaz indiano que demonstra interesse nela. Os dois estão unidos pela exclusão social. A cena do cinema, quando ele pede para casar com ela e ambos dizem que não estão entendendo o filme, é bem representativa dessa situação incômoda.

Interessante notar que Beatriz vai se tornando mais inteligente e mais esperta à medida que suas aulas de espanhol progridem. Se antes tudo era muito simples nas aulas, como dizer o nome de objetos ou das partes do corpo humano ou de eventos relacionadas ao passado ou ao presente dela, a coisa se tornaria mais complexa quando a professora introduz o estudo do condicional, com o verbo no que a gente chama em português de futuro do pretérito.

Assim, o futuro passa a ser visualizado em uma série de possibilidades. E se o rapaz indiano for casado, o você faria? E se seus pais descobrirem e não gostarem do rapaz, o que aconteceria? E se você viajar para a Índia, como seria? Assim, as imagens surgem na tela quase como verdades, embora saibamos que estamos diante de jogos de imagem a partir dos pensamentos de Beatriz.

Interessante vermos mais um filme que mostra o quanto a linguagem é capaz de modificar o futuro das pessoas. Vimos recentemente uma obra ambiciosa sobre o tema no registro de ficção científica, A CHEGADA, de Denis Villeneuve. Agora temos um filme bem mais modesto, principalmente em seu orçamento, minúsculo, mas que ganha uma dimensão enorme no que tange à reflexão sobre as influências da linguagem na vida e na mente de uma pessoa, no quanto isso pode aumentar as fronteiras. Claro que também não é só isso, pois há toda uma angústia que sentimos ao ver a história pela ponto de vista de Beatriz. E terminar do jeito que terminou também faz com que O FUTURO PERFEITO fique conosco após a projeção.

sábado, julho 15, 2017

JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES (Everybody Wants Some!!)

A filmografia de Richard Linklater é bem irregular. Às vezes fico me perguntando por que o homem que dirigiu obras tão intensas quanto a trilogia ANTES DO AMANHECER (1995), ANTES DO PÔR-DO-SOL (2004) e ANTES DA MEIA-NOITE (2013) tem em seu currículo alguns filmes até inexpressivos e que muitas vezes passam batido. Porém, não dá pra dizer que ele é um diretor que não tem a sua marca e as suas obsessões impressas em suas obras.

Uma delas, como dá para perceber pela citada trilogia, é a sua preocupação com a passagem do tempo, em pensar sobre o tempo como algo fugaz e por isso mesmo tão valioso. JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES (2016) é uma continuação espiritual de JOVENS, LOUCOS E REBELDES (1993), que mostrava as aventuras de um grupo de estudantes do ensino médio no último dia de aula, em 1976, com todo aquele espírito dos anos 1970 impresso. O novo filme traz outro grupo de jovens, desta vez em seu primeiro dia no ambiente universitário, antes de as aulas começarem, no ano de 1980.

A virada da década está presente nos figurinos, no comportamento, na bem selecionada trilha musical, na direção de arte, na fotografia colorida e no espírito festivo do filme. O que pode incomodar um pouco, especialmente aos fãs do cineasta que gostam de conversas de cunho mais aprofundado, é o quanto a filosofia é vista de maneira mais leve pelos olhos dos vários personagens que passeiam pela tela, especialmente se pensarmos que estamos diante de um filme do mesmo diretor de WAKING LIFE (2001).

Mas também sabemos que Linklater é o cara que dirigiu ESCOLA DE ROCK (2003) e que também gosta de pura diversão, sem muitas pretensões intelectuais. O olhar principal do filme é o de Jake Bradford (Blake Jenner). É pelos seus olhos que vamos conhecendo os demais membros da turma que fará parte dessa importante etapa de sua vida. Cada um deles tem a sua importância em um filme que não se preocupa com um plot, mas que prefere deixar seguir seu caminho com naturalidade e leveza, como se estivéssemos testemunhando aquele momento e olhando com carinho para aquelas pessoas, sem nenhuma preocupação com uma conclusão. Afinal, a vida está mal começando.

São jovens que estão mais interessados em jogar beisebol, namorar e brincar do que exatamente estudar. E é muito bom ver essa turma com o olhar de alegria de alguém que está acabando de chegar àquele ambiente e conhecendo aqueles novos tipos. Para aqueles jovens, estar ali era uma questão de autoafirmação. Por isso em muitos momentos fica parecendo um clube do Bolinha com pouca sensibilidade, quase machista, embora haja algumas personagens femininas bem marcantes e encantadoras (principalmente a personagem de Zoey Deutch). A alegria está no ar pela liberdade que finalmente é dada aos jovens, depois do tanto que lhes é proibido durante o colegial. E uma vez que nós deixemos que essa alegria e esse relaxamento nos contagie, JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES (título brasileiro tosco e nada a ver, eu sei) pode ser uma experiência muito gostosa.

sexta-feira, julho 14, 2017

SEIS FILMES INDICADOS AO OSCAR 2017

Os dias se passaram tão rapidamente que até mesmo aqueles filmes mais badalados, os indicados ao Oscar, e que chegaram por aqui no início do ano, por volta de fevereiro, meio que não tiveram chance de ter uma postagem digna aqui no blog. E talvez seja melhor falar um pouco sobre esses filmes logo, antes que a memória deles se torne ainda mais nublada.

CAPITÃO FANTÁSTICO (Captain Fantastic)

Belo filme que nos faz pensar sobre o tipo de educação que se recebe e sobre o quanto ela sempre vai ser deficitária em algum aspecto. Em CAPITÃO FANTÁSTICO (2016, foto), de Matt Ross, temos uma família que cresce no meio do mato, com uma educação centrada no pai, que ensina aos filhos valores distantes do que ensina o mundo capitalista que ele tanto abomina. As cores do filme são lindas e adoro as cenas ao ar livre, com os filhos do personagem do Viggo Mortensen em atividade, e também mostrando sua educação, o interesse deles e, como era de se esperar, também uma vontade de conhecer o mundo e deixar a família por parte de algum. A questão afetiva pesa bastante também, até pela morte da mãe. A cena com "Sweet child o'mine" é muito bonita. A execução podia ter ficado melhor, é verdade, mas dentro do contexto é emocionante. A canção já se provou forte o suficiente, aliás, sem a guitarra do Slash, em outras versões. CAPITÃO FANTÁSTICO é o primeiro filme de destaque de Matt Ross como diretor. Indicado ao Oscar de melhor ator (Viggo Mortensen).

A TARTARUGA VERMELHA (La Tortue Rouge)

Uma beleza de animação esta A TARTARUGA VERMELHA (2016), do holandês Michael Dudok de Wit. De encher os olhos. Lembrei da obra-prima A ILHA DO MILHARAL, de George Ovashvili, pela capacidade de contar a história sem diálogos e em um espaço físico pequeno, mas exuberante. Fiquei ainda sem entender algumas coisas, mas o mistério faz parte do charme do filme. Uma pena que, como acontece com boa parte das animações, em certo momento eu comecei a cochilar. Ainda estou para entender esse meu problema com filmes de animação e fantasia. Ainda assim, a lembrança que fica de A TARTARUGA VERMELHA é muito positiva. Apesar de ser uma coprodução entre França, Bélgica e Japão, o filme é uma produção dos Estúdios Ghibli. Indicado ao Oscar de melhor longa-metragem de animação.

ANIMAIS NOTURNOS (Nocturnal Animals)

Agradou-me bastante este ANIMAIS NOTURNOS (2016), segundo filme de Tom Ford. Aliás, é incrível que ele tenha feito um filme tão bom nesse relativamente longo espaço de tempo de seu primeiro e até então único longa, DIREITO DE AMAR (2009). A história dentro da história é bem boa e até chega a superar a história "principal" no que mais interessa. Ou seja, no quanto funciona como suspense perturbador, quase próximo de um filme de horror. E a outra, protagonizada pela dona da galeria de arte vivida por Amy Adams, tem um grau de dor e angústia que contagia. O filme me tirou o sono numa madrugada dessas. É empolgante. O mundo dela é frio mas (justamente por isso?) acho que dá pra sentir o arrependimento da personagem de ter deixado o ex (Jake Gyllenhaal). E é muito legal quando as memórias sentimentais dela se misturam, de certa forma, com a narrativa do livro. Indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante (Michael Shannon).

EU NÃO SOU SEU NEGRO (I Am Not Your Negro)

Documentário quase tão incisivo quanto James Baldwin e suas palavras, sejam as lidas por Samuel L. Jackson, sejam as que foram registradas em programas de televisão. EU NÃO SOU SEU NEGRO (2016) chega em um momento particularmente importante para se discutir o quanto a sociedade ainda deve muito ao negro. A americana, em especial, no que ela tem de mais insana e inacreditável. O cineasta haitiano Raoul Peck faz um filme tão poderoso e amargo (e com razão de ser amargo) que ficamos até sem palavras. O fato de existir um filme como este é uma das grandes vantagens desse ano, em que temas sobre a questão negra tiveram mais espaço para vir à luz. Indicado ao Oscar de melhor documentário em longa-metragem. Teria ganhado, se não fosse pelo tamanho e a força de O.J.: MADE IN AMERICA, de Ezra Edelman, que está mais para uma minissérie de televisão, mas tudo bem.

O LIMITE ENTRE NÓS (Fences)

E falando sobre filmes de temática negra, infelizmente este terceiro longa de Denzel Washington na direção, O LIMITE ENTRE NÓS (2016), não me encantou. Aliás, eu achei o filme chato pra caramba. Tem algo de interessante no texto, mas a emoção não me veio. E olha que eu já estava preparado para um filme mais teatral. É possível que vendo no cinema a experiência seja muito melhor, mas em casa é um filme maçante. E pouco envolvente como cinema, parecendo teatro filmado mesmo. E nem gostei tanto da caracterização de Viola Davis assim, no papel de esposa do personagem de Denzel. Ver em casa foi meu ato de rebeldia por terem colocado o filme para estrear uma semana depois da cerimônia do Oscar. Para não dizer que não gostei de nada, o papel do filho mais novo do Denzel é bom, poderia ter rendido mais. Há uma sequência poderosa: o diálogo duro do Denzel com o filho. Aquilo dói pra caramba. Vencedor do Oscar de melhor atriz coadjuvante para Viola Davis. Indicado a outras três categorias (filme, ator e roteiro adaptado)

O APARTAMENTO (Forushande)

É o menos criativo e bonito filme de Asghar Farhadi, dentre os quatro que vi do diretor. Creio que o meu preferido ainda é O PASSADO (2013), realizado na França. Mas O APARTAMENTO (2016), de volta ao Irã, é também muito bom de ver. Só peca lá pelo final, infelizmente. Gostei muito do casal de protagonistas. E do quanto é incômodo ver aquela situação de difícil comunicação após um ato de violação do corpo de uma mulher, especialmente quando estamos falando de uma mulher de uma cultura ainda mais complicada no que se refere aos costumes e aos tabus. Dá para lembrar de O SILÊNCIO DO CÉU, de Marco Dutra, que eu acho um filme muito mais bem resolvido, mas a situação em O APARTAMENTO é mais delicada justamente por causa da religião e dos costumes do povo iraniano. A cena em que o marido consegue desmascarar o sujeito que agrediu e estuprou sua esposa mexe, ao mesmo tempo, com nossos sentimentos de revolta e de pena. Tudo misturado. Vencedor do Oscar de melhor filme em língua estrangeira.

quarta-feira, julho 12, 2017

A UM PASSO DA LIBERDADE (Le Trou)

Em todos esses anos como cinéfilo não tive tanto interesse em conhecer a obra de Jacques Becker. Muito provavelmente por ele ser um diretor que não foi tão badalado quanto contemporâneos seus como Robert Bresson e Alain Resnais, mas também por não integrar o corpo de cineastas que formaria a Nouvelle Vague. Uma pena, pois a força deste seu último filme, A UM PASSO DA LIBERDADE (1960), finalizado pouco antes de sua morte, é impressionante. E só pela forma como ele trata de estender o tempo já se percebe que ele era tão vanguardista quanto seus colegas conterrâneos citados.

A UM PASSO DA LIBERDADE é também um deleite para quem gosta de filmes sobre tentativas de fuga. É curioso, aliás, por que não fazem mais filmes desse subgênero, já que boa parte de obras desse tipo, como FUGINDO DO INFERNO, UM SONHO DE LIBERDADE, ALCATRAZ - FUGA IMPOSSÍVEL, PAPILLON, A GRANDE ILUSÃO, O SOBREVIVENTE etc. têm bastante apelo popular. Incluo nessa categoria o meu favorito, UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU, de Robert Bresson.

O filme de Bresson é o que é mais frequentemente comparado ao A UM PASSO DA LIBERDADE. Tanto pelo intervalo pequeno de tempo de cada produção quanto pelo fato de ambos os filmes não terem um viés tão comercial. No caso do filme de Becker, a trama se passa quase que exclusivamente em um cubículo, a cela onde convivem quatro prisioneiros que planejam uma fuga e mais um novato que acabou de chegar e que deixa os demais desconfortáveis: eles devem desistir do plano ou contar ao rapaz? Será ele de confiança?

Pouco sabemos sobre Gaspard (Marc Michel), mas, como o filme começa sendo narrado pelo seu ponto de vista (ou quase isso), é de se esperar que ele seja um personagem de confiança, embora saibamos muito pouco dos motivos de ele estar na prisão e também do porquê de ele ter sido transferido de cela. De todo modo, ele parece se integrar bem ao grupo, ainda que seja sempre tratado de maneira diferente pelos demais.

Um dos aspectos bem curioso de A UM PASSO DA LIBERDADE é que todo o elenco é composto por então não-atores e que um deles, Jean Keraudy, o Roland do filme, interpreta a si mesmo. Ele esteve naquela prisão (recriada em estúdio) e foi o grande mentor dessa tentativa de fuga que inspirou a realização de um romance escrito por José Giovanni e que posteriormente se transformaria neste fantástico filme tão cheio de tensão, dirigido por Becker.

É também uma obra que trata de camaradagem masculina, comparável a muitos exemplares de Howard Hawks. A UM PASSO DA LIBERDADE até poderia explorar mais a tensão que é viver junto em um único cubículo, dormindo no chão e compartilhando aquele pequeno espaço, mas a intenção também é outra, já que todos estavam unidos por um objetivo único: sair dali. E difícil não torcer por eles. E o que dizer da cena da rua? Quase sentimos o ar da liberdade e o cheiro da noite naquele momento. Esses e outros detalhes fazem deste um filme singular.