quinta-feira, maio 25, 2017

REAL – O PLANO POR TRÁS DA HISTÓRIA























Os filmes, por mais que tentem retratar uma época, acabam sendo reflexo da época em que foram realizados. Com REAL – O PLANO POR TRÁS DA HISTÓRIA (2017) não é diferente. É possível perceber que a rixa existente entre esquerdistas e neoliberais que abre o filme é muito mais rancorosa hoje do que era naqueles tempos em que Lula ainda não tinha conseguido vencer uma eleição. É também um filme que acabou chegando em um momento particularmente infeliz para o PSDB, que quis usar o filme como propaganda dos tucanos.

Se bem que é bem possível ver o filme sem esse viés. Até porque, no fim das contas, Fernando Henrique Cardoso não aparece no filme como o criador da ideia do Plano Real. Ele apenas, espertamente, juntou uma equipe que trouxe uma ideia pré-existente em um trabalho de faculdade para a realidade brasileira. Foi um projeto arriscado, mas até hoje se elogia a criação de uma moeda forte, por mais que isso tenha custado bastante ao povo brasileiro, que sofreu um desemprego gigante, além de taxas de juros absurdos, tudo para manter a estabilidade da moeda.

E, por mais que vejamos claramente os problemas do filme, principalmente os de interpretação, escalação de atores e de diálogos, trata-se de uma narrativa até bem envolvente, muito por tratar de um assunto que interessa ao brasileiro médio, especialmente o que viveu os anos 1990. Não dava para esperar grande coisa de Rodrigo Bittencourt, o diretor da tenebrosa comédia TOTALMENTE INOCENTES (2012).

O filme foca na história de Gustavo Franco, que é mostrado como principal responsável pela existência do Plano Real, como também uma pessoa que tentou de tudo para que a moeda persistisse estável, mesmo com uma crise mundial e nacional que pedia que o Brasil cedesse. Não dá também para dizer que ele é exatamente um herói. E nisso o filme tem como mérito a boa interpretação de Emílio Orciollo Netto, no papel do egocêntrico e arrogante Gustavo Franco.

Por outro lado, tirando Tato Gabus Mendes como Pedro Malan, todos os demais personagens soam ridículos, seja Norival Rizzo, como FHC, seja Bemvindo Sequeira como o Presidente Itamar Franco. Paolla Oliveira mais uma vez só serve para trazer beleza para a tela, pois sua interpretação nunca esteve tão constrangedora. Se nas telenovelas já é assim, nos filmes, suas limitações se agigantam. Assim, como Orciollo Netto acaba aparecendo bem mais na tela, os problemas de interpretação do filme são menores do que se esperava, pelo trailer. Ainda assim, não deixa de ser ridículo quando ele grita "Eu não vou desvalorizar a minha moeda!".

Quanto ao atual momento brasileiro de polaridades extremas entre esquerdistas, costumeiramente chamados de comunistas (como se isso fosse uma ofensa), e neoliberais, ela transparece desde o começo, mesmo que nas entrelinhas, embora nada seja tão forte quanto a sequência da discussão no restaurante entre Franco e um amigo que votou no Lula. Não se sabe até quando o país vai se unir novamente para o próprio bem do país, mas a impressão que dá é de que esse cenário vai permanecer por mais um bom tempo. Ainda mais em tempos de governo ilegítimo e uma podridão generalizada, que dessa vez está tão feia como uma ferida exposta.

quarta-feira, maio 24, 2017

CÃES SELVAGENS (Dog Eat Dog)























Curioso o título brasileiro ter usado o adjetivo “selvagem”. Afinal, foi em CORAÇÃO SELVAGEM, de David Lynch, lá em 1990, que Nicolas Cage e Willem Dafoe fizeram sua parceria anterior, pra lá de memorável. Mas Dafoe era então um coadjuvante. Em CÃES SELVAGENS (2016), novo trabalho de Paul Schrader, ele está de igual pra igual com Cage, tão protagonista quanto ele. E enquanto Cage continua no piloto automático, mesmo que com um ótimo papel, Dafoe está brilhante.

Um dos aspectos mais admiráveis de CÃES SELVAGENS é o fato de nenhum dos três personagens, os ex-presidiários vividos por Cage, Dafoe e Christopher Matthew Cook, ser merecedor de nossa piedade. Também pudera, o que Dafoe faz com uma mulher logo no prólogo é algo tão brutal que não dá pra pensar nele em algo menos do que um monstro. O que acontece é que tudo é mostrado com muito humor, ainda que esse humor seja bem pesado.

Mas o que dá impressão é que seria necessário mesmo um cineasta da Nova Hollywood para fazer uma brincadeira tão pesada e sair no lucro. Schrader, brilhante roteirista, tem uma carreira como cineasta marcada por altos e baixos, e até uma aura de maldito. Fazia tempo que um filme do cineasta não pintava no circuito e desde o incidente envolvendo o prelúdio de O EXORCISTA, negado pelos produtores e lançado posteriormente em vídeo com o título de DOMINION – PREQUELA DO EXORCISTA (2005), que Schrader andava meio apagado dos holofotes, por mais que não tenha deixado de fazer e lançar filmes com uma boa regularidade.

Filme que se assiste com um sorriso de orelha a orelha (isso se você não ficar muito chocado com os personagens e as cenas), CÃES SELVAGENS também desperta umas boas gargalhadas, como na cena em que os três amigos resolvem sair, cada um, com uma mulher. E cada um em uma situação diferente. Todos eles, além de muito brutos e violentos, estavam desacostumados com o mundo exterior e acabam não sabendo aproveitar o prazer e a graça que o sexo oposto oferece.

Há quem vá achar tudo uma brincadeira de muito mau gosto, especialmente o duplo homicídio que abre o filme, mas a ideia talvez seja mesmo fazer uma obra em que o grotesco predomina, cujos exageros formais e narrativos andam de mãos dadas com seus personagens grosseiros, violentos e sem nenhuma esperança de conseguir um lugar naquele mundo estranho, depois de passarem tanto tempo atrás das grades. Se lembrarmos que Schrader é o roteirista de TAXI DRIVER (1976), podemos facilmente colocar esses novos personagens junto com o taxista psicopata do filme de Scorsese. Lembremos de sua cena levando a namorada para um cinema pornô. Mas, curiosamente, o roteiro é baseado em uma obra literária. Agora, cá pra nós, o que é aquele final, hein?

domingo, maio 21, 2017

CORRA! (Get Out)























2016 foi um ano muito especial para os filmes que traziam temática racial. Tanto que no Oscar deste ano foi MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR, de Barry Jenkins, o grande vencedor na categoria principal e O.J. – MADE IN AMERICA, de Ezra Edelman, na categoria de documentário, sendo que ambos já concorriam com pesos pesados da temática: UM LIMITE ENTRE NÓS, de Denzel Washington, e EU NÃO SOU SEU NEGRO, de Raoul Peck. Os quatro são obras que trouxeram uma rica e dura reflexão sobre o negro na sociedade americana.

Mas os filmes de horror, que muitas vezes são menosprezados, costumam ser excelentes análises políticas e sociais sobre a sociedade. Um dos exemplos mais claros disso é A NOITE DOS MORTOS VIVOS, de George A. Romero, que, aliás, possui um protagonista negro em plena década de 1960. Este e as demais sequências dos filmes que influenciaram definitivamente o que hoje se chama de filme de zumbi foram exemplares como representações do mundo.

Eis que este ano um filme de horror dirigido por um cineasta negro e que trata a questão do abismo existente entre brancos e negros nos Estados Unidos pegou muita gente de surpresa: CORRA! (2017), de Jordan Peele, que a princípio parece apenas a história de um rapaz negro, Chris (Daniel Kaluuya), que se vê aterrorizado com a expectativa de conhecer a família branca, ainda que liberal, de sua namorada Rose (Allison Williams, a Marnie da série GIRLS).

A aproximação com o horror vai acontecendo de maneira paulatina, com Peele tendo um domínio narrativo admirável, e ainda colocando um senso de humor original que envolve a plateia e faz rir, mesmo que seja de nervoso, em alguns momentos. O que deixa Chris mais cismado, logo que ele chega na casa da família dos pais da namorada são os criados: uma mulher e um homem negros, que mais parecem zumbis retirados dos filmes sobre zumbis haitianos, como A MORTA-VIVA, de Jacques Tourneur.

Sua tentativa de  conversar com eles só mostra o quanto sua ideia de que há alguma coisa terrivelmente errada naquela casa e naquela comunidade fazia sentido e não se tratava de paranoia – há uma cena em que a empregada negra chora e ri ao mesmo tempo, enquanto conversa com ele e outra em que ele leva um baita susto quando sai pra fumar um cigarro ao ar livre. São cenas de certa forma sutis, mas que antecipam, o cenário de horror e medo que vai sendo construído e que, no final apoteótico, eleva o filme à posição de um dos mais interessantes exemplares do gênero atualmente.

Assim, CORRA!, ao mesmo tempo em que funciona de maneira admirável como um filme de medo (os momentos mais eletrizantes não foram sequer mencionados aqui), o que já seria louvável, traz também um questionamento tanto da história de sofrimento do povo negro americano, que remonta à escravidão, quanto da questão do roubo, por parte dos brancos, da riqueza cultural afro-americana, o qual vem sendo feito explicitamente na música há muitas décadas e continua sendo.

sexta-feira, maio 19, 2017

A AUTÓPSIA (The Autopsy of Jane Doe)























Provavelmente estou dando um spoiler de um outro filme, mas fique à vontade para deixar de ler. Em A MORTE DE LUÍS XIV, de Albert Serra, há uma cena perturbadora para pessoas desacostumadas com imagens reais de partes do corpo humano dissecadas, como fígado, baço etc. No filme de Serra, certamente por ser tão realista, isso chega a incomodar mesmo, embora contribua ainda mais para a grandeza do trabalho do cineasta espanhol.

Pulemos então para este terror A AUTÓPSIA (2016), primeiro trabalho em língua inglesa do diretor norueguês André Øvredal. Imagina-se que o efeito do filme de Serra se estenderia por boa parte de um filme que lida com pessoas que retiram para análise partes do corpo de pessoas mortas. Mas não é bem isso que acontece: todas as cenas de autópsia do corpo da desconhecida que aparece são artificiais. Jane Doll parece uma boneca de borracha. E talvez seja mesmo, embora o ideal era que fosse mais real.

De todo modo, A AUTÓPSIA funciona justamente em sua primeira metade, quando acompanhamos pai e filho (Brian Cox e Emile Hirsh) se mostram felizes com seu trabalho de investigar a causa da morte dos cadáveres que chegam ao necrotério. E nós, do lado de cá da tela, também ficamos bastante intrigados com essa mulher desconhecida, que vai se revelando cada vez mais misteriosa a cada vez que eles cortam seu corpo.

O problema do filme está justamente quando ele se assume explicitamente de horror e todos os clichês já vistos em tantos outros trabalhos sobre casas assombradas e fantasmas ou outro tipo de ameaça sobrenatural acaba tornando tudo muito sem graça. Há poucas cenas de susto – e isso é até bom, torna o trabalho mais honesto –, mas os poucos que têm são frágeis.

A transformação do suspense de base criminal, ainda que saibamos que seria só o ponto de partida, em terror puro e simples, mas sem nada a acrescentar ao gênero, nem mesmo eficiência, acaba tornando a experiência de A AUTÓPSIA bem frustrante. Ficam as boas atuações de Cox e Hirsch, que dominam as cenas durante boa parte da narrativa, além do bom trabalho de direção de arte. Não deixa de ser um filme curioso e que merece a espiada.

sábado, maio 13, 2017

ALIEN - COVENANT























Ridley Scott com o tempo vem demonstrando, cada vez mais, tanto seu poder de criar imagens poderosas quanto suas fragilidades, quando mostra sua dificuldade em construir cenas de ação rápidas e eficientes. Essa fragilidade comparece com força em vários momentos de ALIEN – COVENANT (2017), sequência quase direta de PROMETHEUS (2012), na ordem cronológica da mitologia do universo Alien.

Mesmo não sendo o sucesso gigante esperado pela Fox, PROMETHEUS conquistou uma discreta geração de fãs. Além do mais, dessa vez, o nome “Alien” no título certamente surtirá um efeito maior nas bilheterias, agora que as intenções de Scott em voltar ao universo que ele deu início em 1979, com ALIEN, O 8º PASSAGEIRO, se tornaram bem mais claras. É quase como se ele dissesse: outra pessoa vai fazer uma continuação de BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDROIDES (1982), mas serei eu quem vai retomar as rédeas de uma franquia de sucesso iniciada por mim. E, assim, é possível que novas sequências de ALIEN venham no futuro, pelas mãos do próprio Scott.

Um dos pontos bem positivos de ALIEN – COVENANT é o cuidado com a construção das imagens que se manifesta desde o início, quando vemos o andróide Michael Fassbender despertando e mostrando sua perfeição como criatura sintética para seu criador. Ele se autodenomina David, em homenagem a uma escultura de Davi, o segundo rei de Israel, que vê na sala. Corta para uma imagem da nave Covenant, também com Fassbender, dessa vez supervisionando a espaçonave, enquanto a tripulação e um grande grupo de pessoas colonizadoras outro planeta dormem em suas câmeras criogênicas.

Porém, um acidente sério faz com que a nave seja abatida e danificada e muitos da tripulação acabem sido afetados. O próprio capitão é uma baixa. Billy Crudup, como Oram, acaba assumindo o posto, já que era o segundo em comando. O ego de estar no comando mexe com a cabeça de Oram, que fica até mesmo insensível à morte do capitão, companheiro de Daniels, vivida com relativo brilho pela inglesa Katherine Waterston, que foi destaque em ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM, David Yates, e VÍCIO INERENTE, de Paul Thomas Anderson.

O fascínio pelo visual das criaturas criadas pelo artista plástico H.R. Giger se mantém em ALIEN – COVENANT. Elas novamente surgem a partir do contato com o corpo humano, assimilando a organicidade dos corpos e os usando como fonte de materialização e efetivo nascimento, como sementes esperando um solo fértil para nascer e se desenvolver. Algumas das criaturas são menores e mais claras, e saem de dentro dos órgãos das vítimas em cenas gore bem interessantes; e uma delas é assustadoramente maior e de cor preta.

Elas acabam sendo o grande trunfo do filme, junto com a elegância da direção de Scott, mesmo com todos os problemas do roteiro fraco. Além do mais, algumas cenas são carentes de um maior cuidado, principalmente levando em consideração que, por mais que pudessem ter feito um filme B honesto com essa história, sabemos que não é o caso aqui. Afinal, estamos diante de uma superprodução, com todos os recursos necessários para fazer tudo no capricho. No entanto, na cena em que Daniels fica dependurada numa nave enquanto atira em uma das criaturas, tudo parece tão rápido e insípido e parecido com um videogame de geração ultrapassada, que se esta cena fosse deletada, seria para o bem do filme.

Scott é um excelente arquiteto de dramas também, embora nunca (ou raramente) tenha dirigido filmes feitos para chorar – o que não é um problema, de modo algum. No entanto, como gosta também de dirigir filmes caros e grandiosos, acaba derrapando com certa frequência, como foi o caso recente de EXÔDO – DEUSES E REIS (2014). Felizmente, sua volta ao espaço sideral com o ótimo PERDIDO EM MARTE (2015) fez com que ele tomasse novamente gosto por aventuras espaciais.

Mas, se por um lado, PERDIDO EM MARTE conseguia nos solidarizar com as angústias de seu protagonista, ALIEN – COVENANT. além de quase se assumir como um horror/sci-fi genérico, de tão desleixado que parece em certos momentos - as questões filosóficas de PROMETHEUS são quase que totalmente deixadas de lado ou mostradas de maneira muito rasas - seus personagens são rasos e desinteressantes. Por isso, a sorte é que quando Scott acerta, mesmo em um filme irregular como este, ele acerta bonito. O que acaba compensando.

segunda-feira, maio 08, 2017

TOP OF THE LAKE























No mesmo ano que TWIN PEAKS retorna, uma minissérie de prestígio mais recente, TOP OF THE LAKE (2013), também volta. Detalhe: ambas terão sua première com os dois primeiros episódios no Festival de Cannes. TOP OF THE LAKE não foi pensada para ser uma série, mas uma minissérie. E, de fato, há uma história fechada, contada em sete episódios de menos de uma hora cada.

TOP OF THE LAKE, assim como THE KILLING (2011-2014), é devedora do caminho aberto pela revolucionária série de David Lynch e Mark Frost. A principal diferença é que aqui não temos nem humor nem surrealismo. É tudo muito sério, inclusive. Até porque se trata de uma minissérie de denúncia dos abusos que as mulheres sofrem dos homens, que são mostrados quase em toda a totalidade como seres repugnantes.

Jane Campion, junto com Gerard Lee, são os criadores da produção, que nos apresenta ao caso de uma garotinha de 12 anos de idade que se descobre grávida. Passando uma temporada em sua cidade natal, Robin, a detetive de polícia vivida por Elisabeth Moss, é chamada para ajudar no caso. Com pouco esforço, ela consegue conversar com a garota, coisa que os policiais da cidade não haviam conseguido.

Aos poucos, vamos percebendo, à medida que a história nos apresenta mais aprofundadamente a protagonista, que ela tem seus motivos para estar bastante interessada no caso de Tui, a garotinha grávida, que já no segundo episódio desaparece. Teria fugido? Ou foi sequestrada? Está viva ou morta? O pai da menina tem algo a ver com isso? São várias perguntas que surgem e que permanecem sem serem contadas por alguns episódios. Lembrando que o pai da garota, Matt (Peter Mulan), é temido na cidade justamente por ser extremamente perverso. Logo no primeiro episódio, por exemplo, vemos do que ele é capaz.

O que deixa Matt enfurecido de verdade é a invasão de um grupo de mulheres pertencentes a uma espécie de comuna que carregam consigo traumas com maridos e amantes e que seguem uma estranha senhora grisalha chamada apensa de GJ, vivida por Holly Hunter, que havia trabalhado com Jane Campion em O PIANO (1993), filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes.

As cenas mostrando a paisagem da Nova Zelândia são excepcionalmente belas e contribuem para enriquecer a experiência de ver TOP OF THE LAKE. O problema é que a minissérie, a partir do terceiro episódio, perde um pouco o impacto dos primeiros, que nos deixam cheios de entusiasmo. Felizmente, ainda que de maneira anti-climática, o desfecho é bom, sem falar na direção de atores e todo o trabalho de interpretação, que eleva a série a uma categoria respeitável.

sábado, maio 06, 2017

HIROSHIMA MEU AMOR (Hiroshima Mon Amour)























Há filmes que precisam de um pouco de maturação da nossa parte para que sejam minimamente valorizados. Minha relação com HIROSHIMA MEU AMOR (1959) não era das melhores, em comparação com o quanto este filme é amado e cultuado por uma vastidão imensa de cinéfilos. Muito da culpa disso está no fato de eu não ter me conectado nas primeiras vezes com o universo do filme e também conta o fato de eu ter visto duas vezes na telinha – e confesso que achava maçante, como quase todos os trabalhos que havia visto de Alain Resnais.

Mas aí eu resolvo dar uma chance e rever o filme, desta vez no cinema, em uma cópia linda, remasterizada em 4K. Meu Deus! O que é aquilo? Que obra maravilhosa é essa? Foi como se uma cortina escura tivesse saído de meus olhos e eu finalmente pudesse ver a beleza singular desta obra, perceber a perfeição em cada cena, o romantismo e o antinaturalismo das falas dos personagens, uma atriz francesa (Emmanuelle Riva) e um arquiteto japonês (Eiji Okada), ambos casados, que se encontram e se amam em Hiroshima. A situação de ambos até lembra a de ANTES DO AMANHECER, de Richard Linklater, e sua sequência, já que aquele é o último dia no Japão da atriz francesa.

HIROSHIMA MEU AMOR, pelo menos em sua parte inicial, que mostra a conversa íntima e poética dos dois amantes em um quarto de hotel, enquanto falam sobre Hiroshima e vemos imagens da terrível herança deixada pela bomba atômica naquela cidade, é uma espécie de continuação do documentário em curta-metragem NOITE E NEBLINA (1956), sobre o holocausto e os campos de concentração nazistas. Vê-se que a verve documentarista e o interesse pelos horrores da guerra ainda eram elementos que assombravam Resnais. Para isso ele recorria à poesia falada para ajudar a compor a poesia em imagens.

O filme foi um dos marcos inaugurais da nouvelle vague francesa, quando lançado no mesmo ano de OS INCOMPREENDIDOS, de François Truffaut, no Festival de Cannes. Porém, Resnais já tinha muito mais tempo de estrada do que o jovem Truffaut. Seu primeiro curta é de 1936. Há um gap de 10 anos entre a obra posterior, mas isso, muito provavelmente se deve à invasão alemã na França durante a Segunda Guerra Mundial. A partir de 1946 ele não parou de experimentar e se aperfeiçoar.

HIROSHIMA MEU AMOR tem um erotismo sutil, mas de certa forma ousado para a época. Não há grafismo, mas há as vozes e os corpos. O erotismo nesses 15 minutos iniciais se funde com as imagens do horror das vítimas da bomba que destruiu aquela cidade, das imagens do museu que mostra vestígios daquela tragédia e de pessoas sofrendo em hospitais. Depois dos 15 minutos iniciais, estamos de volta a algo mais próximo da realidade, quando os dois terão que se separar, pelo menos por ora, para ir ao trabalho. É quando o filme se concentra mais no drama dos dois, sem no entanto deixar de mostrar assombrações do passado, como a história contada por ela sobre seu primeiro amor, um soldado alemão.

A história da personagem de Riva é tão intensa e sombria tinha tudo para eclipsar o fio principal da narrativa. Mas, como tudo no filme funciona à perfeição, essa história só ajuda a tornar HIROSHIMA MEU AMOR ainda mais poderoso, a dar ainda mais profundidade à personagem feminina e a torná-la ainda mais fascinante. A cena no restaurante, com ela se embriagando de vinho enquanto conta sobre seu passado, é tão cheia de amor e amargura que somos quase impossibilitados de não nos contagiarmos com essa imensidão de sentimentos.

E temos, claro, a construção visual na fotografia em preto e branco exuberante, mas também um tanto claustrofóbica. Porém, me pergunto o que seria do filme sem o roteiro poético de Marguerite Duras. As palavras são faladas de maneira bem pausada, para que sintamos o significado e a importância de cada uma delas, para que possamos sorver a poesia e o sentimento de paixão e angústia daquelas duas almas que estão prestes a se separar, mas que não conseguem se manter distantes uma da outra. E é por isso que não devemos nunca deixar passar uma experiência de ver os clássicos no cinema. É na telona que somos mais tragados pela força de obras magistrais como essa.